Ao contrário do que se pode pensar, não estou falando de fazer amizade com caras “gatos” estou falando da amizade humano-felino mesmo.
Sempre fui apaixonada por gatos, quando eu era criança era possível me ver toda arranhada por agarrar gatos de rua. Minha mãe não gostava, mas eu sempre preferi gatos a cachorros.
Acontece que gatos são difíceis, não são aqueles amorzinhos que se vê no youtube o tempo todo. Se você encontra um gato na rua, vai ver que ele não vai vir correndo quando você chamar, ele vai se esconder. Ele não sabe se você é bem intencionado e o instinto de sobrevivência deles faz com que eles não sejam tão amigáveis logo de cara. Nem sempre é assim, gatinhos domesticados podem ser mais receptivos aos humanos, mas os que nunca tiveram um lar direito, ou que foram abandonados nas ruas, esses tendem a desconfiar mais.
A primeira gata que resgatei foi quando eu tinha 9 anos. Era uma gata linda, branca com rajado e de olhos verdes. Estava em uma das salas da escola que eram usadas de “ferro velho”, onde se acumulavam carteiras e cadeiras quebradas amontoadas, sem ordem. Percebi uma movimentação de meninos mais novos atirando pedras e objetos na sala, a intenção era acertar o gatinho que estava lá. Ela era muito esperta e se escondia, mas ela queria sair e estava acoada pelos meninos. Como eu era maior saí gritando com eles e ameaçando bater neles. Eu disse que o gato era meu e que tinha ido lá pra buscá-lo.
Me pus na entrada da sala, que mais parecia um porão no térreo do prédio, saída para o pátio e nenhuma janela. Lá eu chamava o gatinho, fazia psi psi psi e mostrava pra ele que eu só queria fazer amizade. Ela saíu e me deixou acariciá-la. Então peguei ela no colo e andei os 6 quarteirões que separavam minha escola da minha casa. Eu não sabia ver o sexo do gato, pra mim era indiferente.
Quando cheguei em casa deixei ela no corredor e não contei a história pra minha mãe, eu só disse “Olha mãe o gatinho que entrou aqui! Posso ficar com ele?” Ela era linda, não tinha como não se apaixonar. Eu já tinha outro gato, um rajado chamado Mingus, mas a gata ficou e depois que minha mãe viu que era fêmea escolhi o nome de Mikaella.
Ela viveu muitas coisas com a gente, viveu 19 anos e se foi para o céu dos gatinhos há mais ou menos um ano e meio.
Eu tive outros gatos, mas a gata que teve 9 vidas e que viveu tanto tempo com a família foi a que mais marcou minha vida. Eu a amei demais!
Agora eu tenho dois gatos: a Luna, uma gata gorda de olhos azuis e muito manhosa que chegou há pouco mais de um ano e meio. Ela tinha outro dono, que precisou escolher entre ela e a saúde do filho que nasceu com alergia a gatos. O Abel, um gatinho amarelo de olhos também amarelos e magrinho, pequeno tem pouco mais de um ano e chegou aqui em casa faz 2 meses, antes ele morava no abrigo do Adote um gatinho.
A Luna parecia muito carente de atenção, ela veio mimada e parecia que toda a atenção que eu dava pra ela ainda não era suficiente. Era manha demais pra uma gata só! Então resolvi adotar um parceirinho pra ela. Escolhi que tinha que ser um parceiro pra ela e não pra mim, poderia ser um gatinho arisco, já que os arisquinhos são os que mais tem dificuldade de encontrar um lar, justamente pela falta de paciência de quem adota.
As meninas do adote um gatinho foram enfáticas: “ele é arisco, tem certeza que você quer ele?” e eu disse que sim.
Ele chegou aqui em casa no começo de dezembro e, como era esperado, se escondeu. Se escondeu embaixo da cama, não saía por nada durante o dia. A noite, quando eu me deitava na cama onde ele se escondia, ele saía e daí eu ouvia ele visitando a caixinha de areia e os potinhos de ração e água.
Fingi que ele não estava por perto quando ele começou a sair enquanto eu estava acordada. Quando eu passava ele se afastava de mim, e corria pra debaixo da cama se eu tentasse chegar perto dele. Então continuei a fingir que ele não tava ali.
Com o tempo ele foi se sentindo mais a vontade na casa. Deitava na sacada de manhã pra tomar Sol exatamente como a Luna sempre fazia. Eu olhava pra ele e conversava com ele. “Abel! Você tá tomando Sol! Que lindo que você tá!” e me afastava.
Com o tempo ele percebeu que de vez em quando ele ganha um wiskas sache, e que eu não ía maltratá-lo então ele começou a ficar mais próximo. Sempre que eu vou à cozinha fazer meu almoço ele chega empurrando minhas canelas com a cabeça, fazendo manha pra ganhar wiskas sache, o interesseiro!
Em dois meses ele se sente à vontade pra subir na minha cama quando estou lá e deitar próximo a mim, mas não é dos mais amigáveis quando eu caminho em direção a ele quando ele está andando pela casa. Ele sempre se afasta!
Amizade é conquistada aos poucos e os gatos são bem mais diretos quanto a isso. Se você tentar intimidade demais com uma pessoa, ela poderá tentar ser educada e contornar a situação de forma que você quase não perceba o limite que está sendo imposto. Com gato não, se você está indo longe demais ele vai andar na direção contrária, se afastando de você. Dependendo ele vai correr e se você insistir ele vai chiar e talvez até te arranhar.
Por isso tem que ir com calma, respeitando o espaço que ele te dá. Leva tempo, mas quando você estabelece uma amizade com um felino vai ver qual a importância de cultivar a confiança dia após dia e depois mantê-la.
Aqui fica o vídeo que eu fiz do Abel, mostrando o quão carinhoso pode ser um gatinho que um dia foi arisco!
Abel, um gatinho arisco mas nem tanto!